ão me importo. Quero saber.
- Ouvi Hake dizer que os mortos eram do seu tio - Pyp disse.
- Sim. São dois dos seis que ele levou consigo. Já devem estar
mortos há muito, só que... os corpos são estranhos.
- Estranhos? - Pyp era todo curiosidade. - Estranhos como?
- Sam te contará - Jon não queria falar daquilo. - Eu tenho de
ir ver se o Velho Urso precisa de mim.
Dirigiu-se sozinho para a Torre do Senhor Comandante,
curiosamente apreensivo. Os irmãos que estavam de guarda
olharam-no solenemente quando se aproximou.
- O Velho Urso está no aposento privado - anunciou um deles,
- Perguntou por você.
Jon fez um aceno, e pensou que, ao sair dos estábulos, devia
ter ido logo para lá. Subiu vivamente os degraus da torre. Ele
quer vinho ou um fogo na lareira, é tudo, disse a si mesmo.
Quando entrou no aposento, o corvo de Mormont gritou:
- Grão! Grão! Grão! Grão!
- Não acredite, acabei de alimentá-lo - resmungou o Velho
Urso. Estava sentado à janela, lendo uma carta. - Traga-me
uma taça de vinho e encha uma para você.
- Para mim, senhor?
Mormont ergueu os olhos da carta e os fixou em Jon. Havia
piedade naquele olhar; podia senti-la.
- Ouviu o que eu disse.
Jon despejou o vinho com cuidado exagerado, vagamente
consciente de que estava arrastando aquele ato. Quando as
taças se enchessem, não teria escolha a não ser enfrentar o
que quer que estivesse naquela carta. Mas depressa demais
elas se encheram.
- Sente-se, rapaz - ordenou-lhe Mormont. - Beba. Jon
permaneceu em pé.
- É o meu pai, não é?
O Velho Urso tamborilou na carta com o dedo,
- É o seu pai e o rei - respondeu, com voz cavernosa. - Não
quero mentir para você, as notícias são dolorosas. Nunca
pensei que conheceria outro rei, com os anos que tenho, tendo
Robert metade da minha idade e sendo forte como um touro -
bebeu um gole de vinho. - Dizem que o rei adorava caçar.
Aquilo que amamos nos destrói sempre, rapaz. Lembre-se
disso. Meu filho amava aquela sua jovem esposa. Vaidosa
mulher. Se não fosse por causa dela, nunca teria pensado em
vender os caçadores furtivos.
Jon quase não conseguia seguir o que o comandante estava
dizendo.
- Senhor, não compreendo. Que aconteceu ao meu pai?
- Pedi que se sentasse - resmungou Mormont. "Senta", gritou
o corvo. - E beba, raios te partam. É uma ordem, Snow.
Jon sentou-se e bebericou o vinho.
- Lorde Eddard foi aprisionado. Está sendo acusado de
traição. Diz-se que conspirou com os irmãos de Robert para
negar o trono ao Príncipe JofFrey.
- Não - disse Jon de imediato. - Não pode ser. Meu pai nunca
trairia o rei.
- Seja como for - disse Mormont -, não cabe a mim decidir.
Nem a você.
- Mas é uma mentira - Jon insistiu. Como podiam pensar que
seu pai era um traidor, teriam todos enlouquecido? Lorde
Eddard Stark nunca se desonraria... não é?
Gerou um bastardo, sussurrou uma pequena voz em seu
interior. Onde está a honra nisso? E a sua mãe, o que lhe
aconteceu? Ele nem sequer pronuncia seu nome,
- Senhor, o que vai lhe acontecer? Vão matá-lo?
- Quanto a isso não sei responder, rapaz. Pretendo enviar uma
carta. Quando jovem, conheci alguns dos conselheiros do rei.
O velho Pycelle, Lorde Stannis, Sor Barristan... Seja o que for
que seu pai fez ou deixou de fazer, é um grande senhor. Tem
de ser autorizado a vestir o negro e a juntar-se a nós. Só os
deuses sabem como precisamos de homens com a capacidade
de Lorde Eddard.
Jon sabia que outros homens acusados de traição tinham sido
autorizados a redimir sua honra na Muralha em outros
tempos. Por que não Lorde Eddard? Seu pai, ali. Era um
pensamento estranho, e estranhamente incômodo. Seria uma
injustiça monstruosa despojá-lo de Winterfell e forçá-lo a
vestir o negro, mas se isso significasse a sua vida...
E Joffrey, permitiria? Lembrava-se do príncipe em
Winterfell, do modo como troçara de Robb e de Sor Rodrik
no pátio. Em Jon quase não reparara; os bastardos estavam
abaixo até de seu desprezo.
- Senhor, o rei o ouvirá?
O Velho Urso encolheu os ombros.
- Um rei rapaz... imagino que ouvirá a mãe. Ê uma pena que
o anão não esteja com eles. Ê tio do moço e viu as nossas
necessidades quando nos visitou. Foi mau que a senhora sua
mãe o tivesse tomado cativo...
- A Senhora Stark não é minha mãe - recordou-lhe Jon em
tom cortante. Tyrion Lannister fora um amigo para ele. Se
Lorde Eddard fosse morto, ela teria tanta culpa como a
rainha. - Senhor, e minhas irmãs? Arya e Sansa estavam com
meu pai. Sabe...
- Pycelle não as menciona, mas sem dúvida que serão bem
tratadas. Perguntarei por elas quando escrever - Mormont
abanou a cabeça. - Isto não podia ter acontecido em pior
hora. Se algum dia o reino precisou de um rei forte... há dias
escuros e noites frias à nossa frente, sinto-o nos ossos... - deu a
Jon um longo olhar perspicaz. - Espero que não esteja
pensando em fazer alguma coisa estúpida, rapaz.
Ele é meu pai, Jon quis dizer, mas sabia que Mormont não ia
querer ouvi-lo. Tinha a garganta seca. Obrigou-se a beber
outro gole de vinho.
- Seu dever agora é aqui - lembrou-lhe o Senhor Comandante.